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Sábado, Setembro 11, 2004
O texto a seguir é postado em sua versão original. Se fosse escrevê-lo hoje, certamente estaria bem diferente.
O Pecado Original - A Origem do Tantra
Para estudarmos o Tantra, precisamos antes de tudo entender o porque precisamos dele. Para isso, podemos nos utilizar de diversas mitologias, porém, desenvolvo a minha linha de raciocínio partindo da Escritura mais conhecida no mundo Ocidental: a Bíblia Sagrada.
Já que é importante ao leitor conhecer o livro de Gênesis, ou pelo menos o seu conteúdo, faço algumas recomendações quanto à leitura da Bíblia. Como sabem, existem diversas "traduções" e "versões" do livro, por isso, o mais confiável é acompanhar à "Bíblia de Jerusalém", a edição mais fiel e completa da Escritura Sagrada, baseada em traduções diretas do Hebraico e do Grego, a qual me foi recomendada pela Escola que freqüento.
Voltando à temática, no Versículo 27 do livro de Gênesis, dá-se início à nossa natureza: "disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e que ele reine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, o gado, toda a terra, e todo o réptil que se move sobre a terra". Assim, a essência hominal é criada, portador de ambas as polaridades, mas fez-se necessária a divisão em masculino e feminino: "Então Iahweh Deus fez cair um sono pesado sobre homem, e ele dormiu. Tomou uma das suas costelas, e fez crescer carne em seu lugar; da costela que tirara do homem, Iahveh Deus formou uma mulher, e trouxe-a ao homem¿.
E o ser hominal, agora dividido em dois polos, recebeu o domínio de toda a Natureza que o cercava, com uma restrição: "Deus ordenou ao homem: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás¿. Continuo, citando o Magus de Francis Barret: "Portanto, o homem foi formado pelo dedo de Deus, que é o Espírito Santo. Sua forma externa era bela e harmoniosa como a de um anjo, e sua voz (antes de pecar) compunha-se somente de sons doces, harmônicos e musicais. Tivesse ele permanecido no estado de inocência no qual foi formado, a fraqueza dos mortais depravados não resistiria à virtude e ao tom celestial de sua voz".
Mas em contraposição à supremacia do homem, surge uma força que o impele à queda. Na Bíblia esta força é representada pela serpente, que mostrou ao homem sua capacidade de livre-arbítrio. Ela rebate o argumento divino ("Disse a serpente: Certamente não morrereis."), justificando que o Criador fizera a restrição para omitir-lhes a capacidade de serem como Ele. Assim, o homem é convencido, e come do fruto proibido: "Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus".
Enfim, deixemos um pouco de lado a mitologia e vamos à interpretação dos símbolos. Lembro ao leitor que este é o meu entendimento, particular, adquirido ao longo de vivências e aprendizados no dia-a-dia ou em Escolas Iniciáticas.
De algum ponto da Criação, surge a essência Hominal, que iremos denominar Alma, andrógena e incapaz de reproduzir-se por si só (ou seja, depende da potência criadora para que se façam novos seres). Em determinado momento de evolução, a potência determina a divisão da Alma em Masculina e Feminina, e esta adquire assim a capacidade da reprodução (o senhor Iahweh manda que os seres se multipliquem e povoem a Terra ainda no primeiro capítulo, versículo 28). Porém, esta reprodução não está relacionada ao sexo, mas sim, com a duplicação do ser, como na mitose: processo onde uma célula diplóide gera outra igual à primeira. Ou seja, a união dos dois seres cria as condições necessárias para que se manifeste o Criador.
Mas o homem foi apresentado à Lucidez, e pela primeira vez, lhe foi oferecido o livre-arbítrio. O símbolo da Maçã é utilizado para representar a primeira cópula ordinária, onde o homem e a mulher exerciam o poder que seria do Criador: através do desprendimento de sua própria energia, gerariam um novo ser. Para que isso acontecesse, era necessário que houvesse a cópula, e quando esta aconteceu, os corpos de luz densificaram-se. Foram formados Adão e Eva, os primeiros homens e mulheres no Planeta Terra. Assim, o homem desprendeu-se da Divindade, e optou por seguir seu próprio caminho, exercendo o livre-arbítrio revelado pela Serpente.
O Tantra surgiu a partir do momento em que houve a primeira cópula: a essência hominal utilizou-se do Kundalini (A Serpente) pela primeira vez, e este foi o responsável pela abertura do portal de queda, ou seja, o Muladahara (chákra básico), que densificou o corpo humano e formou o plano físico.
Foi Adão também o primeiro Tantrista, e para exemplificar, mais uma vez, faço uso da obra de Barret: "Logo que Adão soube que o primeiro a nascer dentre os mortais, a quem ele gerou na concupiscência da carne, cometera fratricídio, previu que a partir de então os mortais cometeriam erros maléficos. (...) Pensou consigo mesmo que a coisa mais discreta a fazer, a partir de então, era abster-se de sua esposa a quem tinha violado. E por isso, ele pranteou na castidade e na tristeza por cem anos inteiros, na esperança que, pelo mérito da abstinência e resistindo à concupiscência da carne, conseguiria não só aplacar a fúria da Divindade como também voltar novamente ao esplendor e majestade de sua inocência e pureza primitivas. Mas uma vez concluído o arrependimento de cem anos, é bem provável ter-lhe sido revelado o mistério da encarnação de Cristo".
Podemos entender que, após um período de meditação e aprendizado, onde buscou o controle de sua concupiscência (desejo sexual ou carnal), Adão chegou à iluminação, entrou em contato com a Essência divina e pode compartilhar de sua Sabedoria novamente. Com isso, provou ao Homem que era possível reverter o Pecado Original, e que poderíamos retornar à essência, contudo, este seria um processo tão demorado quanto a queda, e certamente, bem mais árduo.
Nathan Pensácria, ainda Nathon Rá, em meados de 2001 no Templo de Rá.
Publicado em 10:40 AM por N.P.
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Sábado, Setembro 04, 2004
A Ética Pessoal no Exercício Profissional do Jornalismo
Aos conceitos humanos que diferenciam o bem do mal nomeamos ética. Deste enunciado, já podemos antever que a ética é totalmente relativa a um contexto social, sujeita a uma série de variáveis cujo valor é definido pelos costumes e crenças comuns a um grupo de pessoas.
O jornalismo lida diretamente com conceitos como verdade e justiça, portanto, é fundamental que haja uma discussão sobre a ética nesse trabalho. Mas sendo esse um conceito relativo, como embasar tais padrões éticos?
"Não existe, de forma explícita ou consolidada, uma ética do jornalismo, enquanto atividade que engloba patrões e empregados, pelo menos não uma que seja universalmente reconhecida, aceita e acatada" diz Perseu Abramo em seu artigo A Ética no Jornalismo. Ele argumenta que as conceituações de ética são baseadas em premissas discutíveis, como por exemplo, imaginar que o jornalismo possa ser concebido como um serviço social, sendo que ele é monopolizado por grandes conglomerados de comunicação.
Sua outra oposição à ética jornalística é que o profissional não tem o controle sobre seu trabalho, que é controlado na maioria das vezes por seus superiores hierárquicos, para que o produto-reportagem seja atraente e vendável.
"O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pauta pela precisa apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação", diz o artigo 7o do código de ética do Jornalismo. Ora, apuração exige interpretação, o que já caracteriza uma possibilidade de adulteração do fato. O que seria a verdade, nesse caso?
Vê-se o labirinto conceitual ao qual esse profissional da comunicação está atrelado. Ele precisa definir o que é a verdade, ao mesmo tempo em que ele não deve influenciá-la. O jornalista precisa enxergar os fatos como um todo, consultar as fontes, reunir as informações, e caso não estivesse subordinado a ninguém, decidir o que publicar.
E como tomar essa decisão? O código de Ética diz que devemos publicar tudo o que for de interesse público, no entanto, respeitando o direito à privacidade dos cidadãos. Enquanto esconde essa contradição, deixa subjetivo que, na verdade, tudo vai depender do contexto, cabendo ao próprio jornalista decidir o que fere a privacidade, e o que é de interesse público.
Essa afirmação é perigosa a partir do momento em que está sujeita a um conceito de ética distante do campo profissional: a que rege os relacionamentos humanos. Nesse campo, evidencia-se que preceitos como o respeito mútuo e responsabilidade estão caindo no esquecimento, com a inversão de valores que se prolifera cada vez mais em nossa sociedade.
Podemos assumir então uma definição de ética que se enquadre em ambos os campos. Cabe aqui uma citação de Fernando Saváter, que define em Política para Meu Filho que "a ética é antes de tudo uma perspectiva 'pessoal', que cada indivíduo assume atendendo apenas ao que é melhor para seu bem viver num momento determinado e sem esperar convencer todos os demais de que assim é melhor e mais satisfatoriamente humano viver".
Ou seja: de nada adiantam os códigos e os escritos que definem padrões éticos. Em âmbito profissional ou pessoal, o que vale nesse julgamento é o juiz, ou seja, o próprio indivíduo, que vai decidir baseado em sua experiência de vida e análise premeditada da conseqüência de seus atos se vai tomá-los ou não, se são éticos ou não. Ética, pois, não é uma questão de conhecimento: é responsabilidade.
Nathan Pensácria, em 25/11/2003 na Umesp, achado em arquivo.
Publicado em 12:28 AM por N.P.
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Sábado, Fevereiro 14, 2004
Da Maneira que o Enfrentamos
Problema é um obstáculo natural na vivência humana ou animal. Veja, da mesma forma que a falta de recursos pode aborrecer um ser humano, uma folha demasiadamente grande para carregar ou ainda com algo que a esteja segurando pode ser tremendamente estarrecedora para uma formiga.
O fato é que as coisas nesse plano de existência nunca são exatamente como pensamos ou queremos que sejam, e não basta nos conformarmos com isso: precisamos enfrentar essas situações adversas, que fazem com que os rumos traçados tão minuciosamente sejam desviados. É aí que está o grande encanto da vida, pois de nada adianta definir como ela será vivida. Ela mesma vai tomar seus próprios rumos.
"Qualquer questão que dá margem a hesitação ou perplexidade, por difícil de explicar ou de resolver", define o Aurélio. Não fossem os problemas, nossa existência seria estática, tanto figurada quanto literalmente. Diante de nós, coloca-se uma grande distância entre nossa posição atual e uma adiante: se não firmarmos nossas pernas e nos posicionarmos verticalmente com relação ao solo, não enfrentamos essa distância. O bebê então começa a andar.
O que torna um problema obstáculo intransponível é quando não enxergamos a posição adiante. Isso não nos dá ânimo de enfrentar ou colocar-se de pé, e realmente parece que nossa existência está resumida a ser estática. Precisamos manter vivo em nossa mente que, mesmo que esteja longe demais para ser vista, a próxima base existe, e precisamos caminhar até ela.
Todos os dias quando acordamos precisamos tomar uma decisão: vamos viver esse dia a disposição dos nossos problemas ou de suas soluções? A primeira opção fará com que nos concentremos no abismo, olhando atentamente para seu fundo e tentando identificar o quanto mais podemos cair. Conhecer dá a impressão de que dominamos essa queda, no entanto, de nada adianta afundarmos ainda mais. Já a segunda opção mantém nossa atenção centrada no outro lado: enquanto o primeiro se lamenta por cair, o que toma esse caminho vai buscar quase que instintivamente a corda amarrada na cintura para içar-se.
Não importa se o buraco é profundo, largo, raso ou escuro: se nos concentrarmos no buraco, nunca vamos sair dele.
Nathan Pensácria, após um longo jejum ideológico, no Templo de Shiva
Publicado em 2:16 PM por N.P.
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Segunda-feira, Setembro 15, 2003
Aviso de antemão que o texto abaixo destoa dos demais, porém, Pensácria é um espaço misto.
Testamento
Pediram-me para que antes de morrer escrevesse um testamento, distribuindo meus bens igualmente entre as pessoas que mais amo. Como pouco provém-me os bens materiais, resolvi que distribuiria os espirituais, doando-os um a um àquelas que um dia os mereceram. Redigi, pois, da seguinte forma:
As Idéias serão suas, Fabiana. Lembro-me de quando estava a debruçar-me sobre a prancha de desenhos, e você me deu a linha que precisava para completar minha obra. O fruto deste trabalho rendeu a mim diversas glórias, dentre elas, a Felicidade. Esta, deixarei para Isabela. Ninguém melhor que ela para alegrar-me os dias, e nem precisavam palavras, pois bastava um sorriso e meu entrecenho já deixava de enrugar-se. Coisa de jovem. Essa Jovialidade ficará com Roberta, aquela que me mostrou através de suas ações que não é a idade que determina o quanto um homem é velho. É sua maneira de Pensar. Pensamentos que terão Soraya como herdeira mais que merecida, pois sem ela eu não teria percebido o quanto o corpo pode sucumbir se comandado por uma mente desprovida de Força. Faço então transmití-la por inteiro para Fernanda, que com seus olhos brilhantes iluminou grande parte das minhas noites de Volúpia. Esta, ninguém melhor para tê-la que Juliana, já que foi ela quem me iniciou nos mistérios do Êxtase.
Acabaram-se as mulheres de minha vida, no entanto, sobrou um bem. Seria injusto distribuir desigualmente, ou tirar aquilo que já doei. Então, por fim, está decidido: o Amor, esse terá de morrer comigo.
Nathan Pensácria, no Templo de Shiva
Publicado em 10:10 PM por N.P.
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O Juri Popular na Nova Inquisição
Ao assistirmos diversas manifestações de intolerância religiosa no mundo todo, muitas vezes deixamos de enxergar a que acontece aqui mesmo, "no nosso quintal". Sob a cobertura de dizeres coletados aleatoria e descontextulizadamente da Bíblia, um novo exército de Inquisidores faz terrorismo ideológico contra todos aqueles que não estiverem do seu lado. Por enquanto, quase sempre, este totalitarismo se manifesta apenas no caráter moral, porém, algumas ações isoladas nos levam a crer que, embora os xiitas cristãos sejam a minoria, eles existam.
Monte Santo, no interior da Bahia, é um exemplo disso: um Senhor dos Passos e uma Nossa Senhora das Dores, imagens do início do século 19 que passaram incólumes pela Guerra de Canudos e por ataques da Coluna Prestes, foram queimadas após depredações. Tudo indica que os vândalos foram fiéis da Universal, cena que pode nos remeter a 1995, quando o Bispo Von Helder agride uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida com chutes e socos, em cadeia nacional.
Os parâmetros da nova inquisição até parecem com os da antiga: não bastar crer em Cristo, é necessário crer da maneira que eles desejam, ou como preferem os ministros, à Sua maneira. A mídia torna-se uma ferramenta importante para este Poder: institui o juri popular para julgar e condenar os acusados, ou até mesmo para indiciá-los. O Santo Ofício também tinha o apoio popular quando condenava as bruxas, mas não era o povo quem as indicava como tais. E é válido também ressaltar uma outra característica da Inquisição, que não necessariamente é uma semelhança: foi uma das principais responsáveis para consolidar a hegemonia do Catolicismo romano no mundo ocidental.
O inimigo é fundamental para a expansão das doutrinas totalitárias que precisam de apoio popular. Os Estados Unidos tiveram o comunismo, e hoje, o terrorismo. A Igreja Católica, em um primeiro instante, pode incitar as massas contra os povos não-cristãos, e quando não havia mais guerra conveniente, criou um demonio que possuía bruxas e feiticeiros. Sem ao menos originalidade, as doutrinas neo-cristãs pegam emprestadas essa segunda idéia, e instituem a sua própria guerra santa. Ganham apoio de 2 milhões de combatentes todo ano, segundo estatísticas publicadas na Revista Veja.
Assusta pensar que, num sistema muito parecido com o de franquia, estas igrejas proliferam-se em ritmo deveras acelerado. Em comunidades afastadas dos grandes centros, é mais visível a confusão gerada entre os tradicionais cristãos e os novos, que acaba criando muitas vezes uma sociedade dividida em dois: os evangélicos e os não-evangélicos. Certamente os efeitos dessa divisão não serão benéficos a longo prazo, principalmente se ela vir a atingir as metrópoles.
O Cristianismo está longe de ser intolerante, e até mesmo nas escrituras figuram diversos momentos em que o protagonista dos evangelhos é tolerante com as mais diversas crenças. Talvez por isso que os teólogos do neo-cristianismo tenham como costume utilizar passagens do Antigo Testamento para justificar seus dizeres, escrito antes da vinda do Cristo e num período onde o monoteísmo precisava se consolidar e fortalecer.
Nesse ponto, tanto os novos quanto os velhos inquisidores cometem o mesmo equívoco. Esperamos que pelo menos um dos dizeres do Filho Unigênito não seja esquecido, e que as diferenças não suprimam o que está contido em Mateus 22:39, ou expresso de maneira ainda mais poética em João 13:34 :
"Dou-vos um mandamento novo:
que vos ameis uns aos outros.
Como eu vos amei,
Amai-vos também uns aos outros."
Nathan Pensácria, no Templo de Shiva
Publicado em 12:42 AM por N.P.
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